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Nomadismo digital ou “location independence”: o que nós queremos, afinal?

Estamos prestes a completar 8 meses de projeto, desde que saímos de Porto Alegre para investir no Mundo à Volta e no estilo de vida nômade. Enquanto escrevo este texto, não estou em um café descolado de Santiago ou em uma praia na Tailândia – estereótipos clássicos do nomadismo digital. Escrevo sentada no sofá da casa da minha mãe, onde eu e o Lucas estamos instalados temporariamente entre uma viagem e outra.

O retorno à nossa cidade me ajudou a organizar os insights sobre essa vida que estamos construindo para nós dois e que parece cada vez mais desejada por tantos. Nesses últimos meses, recebemos incontáveis mensagens de pessoas perguntando como fazer para ~largar tudo~ e aplicar um “raio nomadizador” no seu trabalho, assim como nós fizemos. A maioria dessas perguntas me faz concluir que, muito maior do que a curiosidade das pessoas em relação ao nomadismo digital, é a insatisfação delas com a sua realidade. É tanta necessidade de implosão para construção de algo novo, que muito pouco buscamos saber sobre esse tal novo.

Simplesmente bate aquela vontade de “pegar meus dois reais e sair sem rumo pelo mundo”, sabe?

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Mas, diz aí: você já parou pra pensar porque ser nômade digital é a solução para todos os seus problemas? O que esse termo significa pra você?

Eu achava que tinha essas respostas, mas só hoje descobri o que realmente precisava.

Nomadismo digital ou location independence

“Peraí, guria, eu mal descobri o que é nomadismo digital e tu já me vem com outro termo?”. Calma! Para muita gente, ser nômade digital ou location independent é exatamente a mesma coisa. E, para falar a verdade, eu não encontrei na internet textos que diferenciem os dois.

Porém, a nossa experiência até o momento insiste em me dizer que existe diferença sim. E foi aí que eu me achei nessa história toda.

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Para mim, o nômade digital é a pessoa que usa a tecnologia para trabalhar e viajar pelo mundo. Enquanto o location independent desenvolve o seu trabalho e a sua personalidade em torno de um objetivo: liberdade. Liberdade para trabalhar de onde quiser, inclusive do sofá da sua casa. Liberdade inclusive para não viajar, se não estiver a fim.

Um foca na mudança constante (nômade). O outro, na independência geográfica.

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Filmando em Cajón del Maipo, Chile

 

Descobri que a expressão nômade digital me atraía mais pelo digital, não pelo nômade. Descobri que ser nômade era o fim, e não o meio. Ser nômade poderia ser uma possível consequência de um novo formato de trabalho, mas não era o objetivo em si. Achava que queria isso, enquanto tudo que eu precisava era construir esse novo formato que me permitisse escolher QUANDO viajar. E, inclusive, SE eu vou viajar.

-ASSISTA: “Bate-papo sobre nomadismo digital ao vivo no canal OCTO.”-

Porém, me rotular como nômade fez com que viajar fosse uma constante. É tudo uma questão de nomenclaturas, mas daquelas que fazem toda a diferença na nossa cabeça, sabe? Viajar sempre foi a minha maior paixão e, de repente, eu transformei a viagem no meu trabalho, na minha vida. Fazer as malas todo o mês acabou se tornando uma obrigação.

Descobri que, se você odeia o seu emprego no escritório e só fica esperando chegar as férias, isso não significa MESMO que viver viajando é o que vai te fazer feliz ou livre de verdade. Talvez você só precise de um trabalho que te deixe fazer home office. Talvez você só tenha pavor de pedir permissão para fazer outro horário quando precisa.

Não sei, estou aqui pensando junto com você.

Descobri que, se essa tal liberdade não estivesse dentro de mim e fosse inerente ao meu novo ofício, viagem nenhuma faria eu me sentir livre.

Me peguei silenciosamente desejando ter uma casa de novo, um lugar para voltar entre uma viagem e outra. Uma base, um porto seguro. Só de pensar em escolher outro hostel ou Airbnb no mês seguinte, já ficava com um nó na garganta.

Um dia, uma pessoa me perguntou o que eu mais tinha gostado depois de 6 meses pipocando de cidade em cidade pela América do Sul, e eu não soube responder. Não porque foram muitas coisas maravilhosas, mas sim porque eu estava tão ocupada viajando e trabalhando ao mesmo tempo, que não me entreguei de corpo e alma para cada lugar. Eu já não me impressionava tanto, cada cidade era só mais uma. E eu não pertencia a nenhuma delas.

Ser nômade estava estragando a minha paixão mais preciosa, viajar.

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Levando a casa nas costas – Ilha de Chiloé, Chile

E agora?

Quero que a viagem continue sendo parte da minha vida e do meu trabalho. Apenas não quero mais ter um roteiro para dar check e um cronograma para seguir. Não espere encontrar aqui um mapa a ser preenchido com 87 países a serem visitados em 3 anos.

Descobrimos que isso não é pra nós, tiramos o roteiro do nosso site.

Queremos escolher com carinho os lugares para onde vamos, e quando vamos. E eu tenho certeza que o próximo destino vai ser ainda melhor aproveitado por nós. Tenho certeza que o pessoal que nos acompanha não quer saber SÓ sobre os aspectos turísticos do nosso projeto. Queremos também dividir outras coisas aqui. Os perrengues, as partes incríveis, os aprendizados que podem ajudar as pessoas a evoluírem junto com a gente. E a viajarem melhor também.

Vamos continuar trabalhando duro para conquistar a nossa independência geográfica, mas descobrimos que queremos ter algum lugar para chamar de nosso. Um lugar para onde possamos voltar entre períodos de viagem e descobrimento. Quem disse que as duas coisas são excludentes? Dá para ter os dois, sim.

A nossa geração se gaba pelo desapego, pelo lema “não compre coisas, compre experiências”. Mas receio estarmos substituindo uma obsessão pela outra. Antes, coisas materiais. Agora, um passaporte cheio de carimbos. E tem sempre alguém ficando pra trás nessa. No caso você, que viaja só uma vez por ano ou quase nunca.

Não vamos parar de falar sobre nomadismo digital. Ainda somos isso, apesar de acharmos que location independence é uma forma muito mais realista de encarar a coisa. Queremos trazer conceitos e verdades que ajudem vocês a entenderem esse universo junto com a gente.

Descobri que os maiores nômades digitais, aqueles precursores, têm um lugarzinho em algum canto do mundo para chamar de seu. E, talvez, nem viajam tanto assim quanto você imagina.

Nós nunca nos arrependemos nem um segundo por termos implodido a nossa vida em Porto Alegre. Como eu poderia estar escrevendo esse texto agora se não tivesse experimentado outras possibilidades?

Se você também deseja muito se aventurar, apenas tenha uma conversa muito franca com você mesmo antes de decidir qual rumo seguir. Tem um monte de gente experimentando novos caminhos, mas só você pode construir o seu.

Quer trocar uma ideia com a gente? Deixe seu comentário ou mande um e-mail para contato@mundoavolta.com

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2 Comentários

  • Comentar
    Gabriela Gonçalves da Silva
    26 de julho de 2016 em 11:47

    Texto maravilhoso, Gabi!
    Nada está escrito em pedras, e só cabe a nós mesmos decidirmos nosso caminho!
    Parabéns pela coragem e pela transparência!
    Grande beijo e sucesso!

    • Comentar
      Gabriela Nascimento
      26 de julho de 2016 em 12:13

      Oi, xará! Que legal saber que tu gostaste do texto. Muitíssimo obrigada e muito sucesso sempre pra ti também 🙂 Beijão, Gabi

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