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Por que deixamos uma vida para trás?

Quando eu e a Gabi entramos na sala de embarque do aeroporto, não estávamos deixando apenas Porto Alegre para trás. Estávamos deixando toda uma vida. Pais, mães, tios, tias, avós, amigos. Uma casa decorada bem como a gente queria. Empregos estáveis em grandes empresas. Restaurantes aonde passamos os momentos mais comuns e inesquecíveis em família. Os pertences mais significativos reduzidos a uma caixa de sapato e uma metade de armário na casa dos pais. Adeus, almoços de domingo. Adeus, carro. Adeus, ruas que a gente sabe o nome de cor. Mas, você deve estar se perguntando: “Por que trocar conforto e garantia por um futuro de completa incerteza?”. Porque chegou um dia em que os nossos olhos pararam de brilhar, a nossa pele parou de arrepiar e a nossa cabeça parou de sonhar. Estava claro que alguma coisa precisava ser feita, começando por uma avaliação do que estávamos fazendo com as nossas vidas. Seguem as perguntas que eu fiz pra mim e me ajudaram a desempacar.

Entardecer de um domingo em Porto Alegre

Entardecer de um domingo em Porto Alegre

 

Primeira pergunta: como eu me conheço por gente?

Bom, de uma coisa eu tenho certeza: vivo para aprender e evoluir. Talvez por isso ame tanto viajar. Pra mim, a vida é uma linha contínua de novas descobertas que sempre levam à evolução e nos aproximam do que ela é na essência. Achou profundo? Pois, na verdade, é muito simples. É só olhar a sua volta para perceber que tudo evolui, mesmo que pareça estar mudando para pior. O corpo das pessoas envelhece, os dias viram noite, sonhos viram realidade. Mas, então peraí! Se eu acredito no fundo do coração que existo para mudar, por que me sinto tão estagnado?

Segunda pergunta: como eu vivo os meus dias?

De segunda à sexta, eu acordo o mais tarde possível porque gosto de dormir bem. Deixo a frigideira esquentando e já vou preparando um sanduíche, que é pra não perder tempo. Prenso o sanduíche, abro a porta de casa quase sem respirar e saio caminhando bem rápido, enquanto como o sanduíche. Chego na agência de propaganda, tomo um café com o restinho do sanduíche e começo a fazer um trabalho igualzinho ao que eu fiz no dia passado, muitas vezes o mesmo. No fundo, eu estou só esperando a hora do almoço. De tarde, espero a tão sonhada hora de ir para casa, passar duas horas tentando esquecer os problemas do trabalho e dormir vendo uma série. Só não dormia na época do Game of Thrones.

Sábados e domingos: acordar, comer, beber e dormir. Bom, mas decepcionante.

Terceira pergunta: o que eu amo fazer?

Meu deus do céu, que vida de #%*&@ que eu tenho! Mas, eu sei, eu sinto. Lá no fundo existe uma pessoa interessante. Teve aquela vez que eu viajei para Berlim e descobri que a história continua viva no dia a dia das pessoas, mesmo quando metade da cidade foi destruída pelo exército vermelho. Teve aquela viagem pela Bolívia, em que eu aprendi que o ser humano é tão importante quanto um grão de quinoa. E aquela viagem para Cusco, quando eu ganhei muito dinheiro tocando violão em ônibus de linha e até aprendi a falar quéchua. Só um pouquinho, eu ainda tenho esperanças sobre a minha pessoa. E tá aí a resposta: se tem uma coisa nesse mundo que eu amo fazer e dá sentido para os meus dias, essa coisa é viajar.

Quarta pergunta: como unir paixão e profissão?

Considerando que a Gabi chegou às mesmas conclusões da maneira dela, nós dois sabíamos que aquela vida não era para nós. E isso ficava gritando dentro da gente cada minuto dos nossos dias, desestabilizando as nossas mentes como tortura chinesa. Tinha que haver uma saída pra gente viajar mais e, por favor, trabalhar com alguma coisa que nos desse vontade de acordar segunda-feira. Então, a gente começou a pensar e pesquisar muito, até que chegamos no manifesto do site Nômades Digitais. Lendo esse texto, descobrimos uma realidade que estava na tela dos nossos computadores, mas estávamos muito adormecidos para enxergar. Agora já despertos, percebemos que a solução do nosso futuro estava no trabalho nômade. A partir daí, o principal objetivo dos nossos dias era pensar em um projeto com potencial para nos dar dinheiro enquanto viajávamos. E o prazer de viver já começou nessa busca.

Primeiro, pensamos em tudo que sabíamos fazer, que no início se resumia em ter ideias, saber escrever e ter uma boa noção de marketing. Com o tempo, compramos uma câmera profissional, um gravador e aprendemos todo o resto do zero: tirar fotos, filmar, captar áudio, editar vídeos e imagens. Mergulhamos nos tutoriais do YouTube e, depois de muitos vídeos e muita prática, finalmente afloramos habilidades que a gente nem sabia que tinha. Capacidades que nos fizeram evoluir muito até agora e vão ser o nosso ganha pão daqui pra frente. E isso é uma das belezas de se libertar da vida limitada que levávamos, muito mais por pressão da sociedade do que pela nossa vontade. Tudo que a gente fazia era para agradar e beneficiar os outros. E fazer o que interessa aos outros geralmente é muito menos do que a gente é capaz. É apenas o bastante para eles. Assim, vai se criando o comodismo: eu entrego um trabalho meia-boca e tenho uma vida meia-boca.

Na nossa ex-casa

Na nossa ex-casa

 

Vendo as nossas habilidades florescerem a cada dia, ficava cada vez mais claro que era possível mudar de vida e que o nosso lugar não era no mundo corporativo. As economias foram engordando, o projeto foi crescendo e o saco foi enchendo a ponto de explodir. Até que compramos as nossas passagens e estava feito, o passo estava dado. A vida tinha prazo para evoluir.

Muitas pessoas dizem que nós somos corajosos. Eu acho que nós simplesmente fizemos uma escolha: fazer o que a gente ama. Se você ama filmar, vai focar todas as suas forças em uma faculdade de cinema. Se ama cuidar dos outros, vai se matar estudando durante anos para se tornar médico ou psicólogo. Nós amamos comunicar e viajar. E foi por isso que deixamos uma vida inteira para trás. Para ter a vida que sempre sonhamos pela frente.

E você? Tem alguma história de mudança de vida para compartilhar? Quer começar a sua mudança e não sabe como? É só deixar um comentário aí embaixo ou entrar em contato com a gente pelo email contato@mundoavolta.com.

Gostou desse post? Então LEIA TAMBÉM: “8 coisas que aprendemos no começo da nossa vida nômade.”

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2 Comentários

  • Comentar
    José Vicent Payá Neto
    15 de julho de 2016 em 15:55

    Parabéns Lucas!
    Vocês estão cobertos de razão. A vida é risco. Sempre! Portanto, se é para viver, que se viva na busca do que nos proporciona plenitude.
    Zona de conforto é sofá que nos abraça. Quando percebemos viramos o encosto quentinho onde nossos sonhos adormeceram.
    Sucesso no projeto de vocês!
    Tentei cadastrar uma doação mas deu erro. Vou tentar mais tarde.
    Aquele abraço!
    Payá

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      Mundo à Volta
      18 de julho de 2016 em 15:13

      Muito obrigado, Payá! Excelente analogia. É isso aí mesmo 🙂 Que estranho em relação ao apoio. Você pode nos dizer que tipo de erro aparece para que a gente encaminhe e verifique com o portal? Obrigado mais uma vez. Grande abraço, Lucas

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