Argentina Patagônia

Relatos de uma sedentária na capital argentina do trekking, El Chaltén

A nossa segunda parada na Patagônia argentina foi El Chaltén. Fomos para lá logo depois de conhecer El Calafate e nos apaixonarmos pelo glaciar Perito Moreno e pelos lagos da cidade. Parecia difícil que alguma paisagem voltasse a nos impressionar tanto quanto os últimos lugares por onde havíamos passado. Mas, sempre que perguntávamos a moradores locais de El Calafate o que eles mais gostavam de fazer na região, curiosamente nos respondiam “ir para El Chaltén.”

Chegando lá, entendemos perfeitamente. A nossa primeira expressão ao descer do ônibus foi: “uau”.

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Fitz Roy ao fundo, onipresente

 

O povoado não chega a ter nem 2 mil habitantes e algumas poucas ruazinhas, todas rodeadas por montes nevados que deixam o clima ainda mais charmoso, seja no verão ou no inverno. Entrando na cidade, você já consegue avistar o pico que deu nome ao lugar, o “El Chaltén”, que em idioma aonikenk significa “cabeça que solta fumaça”. Assim era chamado o Fitz Roy, cerro mais famoso da cidade que hoje atrai viajantes e alpinistas do mundo inteiro.

El Chaltén é considerada a capital argentina do trekking e todas as entradas e passeios por lá são gratuitos, basta querer caminhar e respeitar as regras de preservação do Parque Nacional los Glaciares. Mas, não espere um post cheio de adrenalina. Nós não somos os mais aventureiros do mundo e eu, por exemplo, nunca tinha feito uma trilha com mais de 2km e não visto uma roupa de ginástica há mais de 6 meses. Acho que essa é a graça do que vou contar por aqui. Se eu consegui aproveitar (muito) a capital do trekking, você também pode.

Se você curte natureza, mas prefere admirá-la da mesa de um bar, a cidade também oferece várias opções bem bacaninhas de lugares para comer e beber muito bem. Mas, por motivos de “não podemos gastar”, nós não conhecemos nenhum desses bares. Vamos focar as dicas nos passeios que fizemos e amamos.

Dia 1: uma sedentária na trilha do Fitz Roy

Chegamos a El Chaltén em um final da tarde, então só deu tempo de dar uma volta pela ruazinha principal, babar pela vista e pelos barzinhos, e já planejar a saída para alguma trilha no dia seguinte. A cidade oferece vários tipos de circuitos dentro do parque, sendo que os principais saem muito próximos ao centro e alguns podem ser feitos em até 4km sem grandes subidas. Mas, a grande estrela é a trilha até a base do Fitz Roy. Sabíamos que a chegada até lá era uma caminhada de 10km só de ida. E aí já me bateu aquela tensão e uma vozinha lá dentro me dizia que eu provavelmente não passaria nem do km 5.

 – ASSISTA AO VÍDEO: “Patagônia parte 2 – El Chaltén, trilha ao Fitz Roy e descanso na cachoeira Chorrillo del Salto” –

Nessa mesma noite, preparamos as mochilas com água, casacos, protetor solar, frutas, sanduichinhos, espaço suficiente nos cartões de memória e baterias da câmera carregadas. E band-aids, porque, né?! Eu pintei o pior cenário.

Deixei de lado a bota metida a besta de trekking que sempre machuca os meus pés e resolvi ir com o meu tênis levezinho de corrida mesmo (da época em que eu tinha tempo pra correr).

Saímos às 8h da manhã do hostel, depois de um café reforçado, e nos juntamos aos vários outros turistas que estavam fazendo o mesmo. É muito bacana o clima de peregrinação, todo mundo caminhando com os seus “cajados” (fundamental) e mochilinhas na mesma direção. Esse foi o primeiro momento em que eu pensei de forma mais otimista: “se toda essa galera vai, eu também posso.”

Quando você entra no parque, o pessoal dá algumas orientações sobre o caminho, sobre acampamentos e banheiros. E você também encontra essa placa:

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Entrada do parque

 

Felizmente, o caminho vai te obrigar a fazer várias paradas. Como não querer uma foto de vistas como essa?

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Primeiro mirador do caminho ao Fitz Roy

 

Passando esse mirador, a próxima parada é a Laguna Capri. A Laguna está a 4km da entrada do parque e é o primeiro ponto com banheiros químicos, onde também é permitido acampar. Confesso que, quando chegamos lá, eu pensei: “Opa, que lindo! Por que a gente não fica por aqui mesmo?”.

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Vista da Laguna Capri para o Fitz Roy

 

Mas o cansaço ainda não tinha batido e, depois de curtir por um tempo essa vista, seguimos adiante.

Fiz os primeiros 9km da trilha sem sofrer muito. Quase nada. Orgulhosíssima e anestesiada com as belezas do caminho. Mas, quando você chega no km 9 encontra uma plaquinha que avisa:

“O próximo (e último) km será só de subida. Se você não tem resistência ou sofre de problemas cardíacos, recomendamos que você não siga adiante.”

Olhei para cima e respirei fundo. O meu cajado improvisado de madeira e o meu tênis levezinho me faziam acreditar que era possível. Então, olhei para o Lucas e disse “bora”.

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“Falta pouco, Gabi”. Aham!

 

Gente, olha essa subida! Eu estou perdoada pela péssima foto aí de cima, fala sério. Não tinha forças nem pra segurar a câmera direito.

Subimos muito devagar, parando várias vezes para tomar a água que recém havíamos pegado de uma das várias fontes naturais do caminho. Enquanto isso, os alpinistas com pernas de 2 metros passam por você tranquilões carregando TODO o equipamento que vão usar para ficar sei lá quantos dias acampando na neve.

Passinho depois de passinho, respeitando o nosso ritmo, chegamos. E olha só a recompensa:

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Fitz Roy e o azul impressionante da Laguna de los Tres

 

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E agora, como faz pra querer voltar?

 

Depois de ficar quase uma hora curtindo e descansando na beira da Laguna de Los Tres, chega a hora de pensar no retorno. Tudo bem que nos verões da Patagônia o dia só termina perto das 22h30, mas não esqueça que você tem mais umas 4h30 de caminhada até chegar de novo na cidade. Faça um lanchinho por ali e já comece a levantar o seu acampamento. Esse é um passeio daqueles clássicos em que o mais importante não é só a chegada, mas também o trajeto.

Sabe aquele fenômeno que faz a volta ser sempre mais rápida do que a ida? Então, a volta foi muito tranquila, juro. Ainda mais quando você está terminando o dia com a sensação de missão cumprida.

Dia 2: relaxar na cachoeira Chorrillo del Salto

A apenas 3km do centro de El Chaltén está uma cachoeira formada por degelo do topo das montanhas: Chorrillo del Salto. Não conseguimos imaginar uma opção melhor de passeio para o dia seguinte à trilha do Fitz Roy. Até porque 3km para mim agora pareciam moleza. De novo, preparamos a marmita e pegamos a estrada. Mas, dessa vez para relaxar. Se você tem um perfil parecido ao nosso, que curte natureza mas não é um mega adepto aos trekkings, nós recomendamos que 3 dias na cidade são suficientes. Mas, caso você prefira fazer mais trilhas, quando for planejar o tempo de estadia tenha em mente os dias de descanso que serão necessários.

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Trilha para a cachoeira

 

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Um cochilo merecido

 

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Lucas, pronto pra outra

Onde ficar em El Chaltén

Se você for para a Patagônia em alta temporada, recomendamos que agende hospedagem com antecedência, ou você correrá o risco de não conseguir onde dormir. Principalmente se buscar lugares mais em conta, como o hostel onde nós ficamos (Pioneros del Valle – 150 pesos por pessoa a noite, em quarto compartilhado, em torno de R$50). Nós não reservamos e tivemos que andar pela cidade toda até encontrar esse. Lá tem hospedagem para todos os gostos: hotéis bacanérrimos, camping nos locais permitidos e até albergues gratuitos para ciclistas. Só não achamos Couchsurfing.

Como chegar em El Chaltén

El Chaltén está a 215km de distância de El Calfate, onde opera o aeroporto mais próximo. Se você vai sair de Buenos Aires, vale comprar uma passagem de avião até El Calafate ou até mesmo a Rio Gallegos (que está a 455km). As passagens de avião acabam saindo o mesmo preço ou até mais baratas do que fazer esse trajeto de ônibus. Nós fomos de avião até Rio Gallegos, de lá pegamos um ônibus até El Calafate e, depois de conhecer a cidade, pegamos outro ônibus até El Chaltén. As empresas que operam são a Taqsa Marga ou a Chaltén Travel. Nós tentamos carona nesse trajeto, mas a concorrência é grande na alta temporada.

 – LEIA TAMBÉM: “A Patagônia dos nossos sonhos. E para o nosso bolso.”  –

Esse post foi útil pra você? Ficou com alguma dúvida ou tem alguma sugestão? Deixe seu comentário ou entre em contato com a gente pelo e-mail contato@mundoavolta.com.

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7 Comentários

  • Comentar
    Rafael
    26 de outubro de 2016 em 00:40

    Oi Gabi!! gostei muito do seu post, quero te perguntar uma coisa,
    já vou começar a planejar minha viagem a patagonia argentina, gostaria de conhecer todos esses lugares e parques, inclusive o Los Glaciares.
    Entretanto minha pergunta é: você pode caminhar livremente dentro destes parques nacionais? eu vi nas fotos que vocês estavam nas pedras, chachoeira, proximo das lagoas e tudo, porque uma coisa que me irritou MUITO no Atacama é que por exemplo no parque em que ficam as lagunas altiplanicas e nos salares, você só pode andar em caminhos (senderos) demarcados por pedras, e nem sequer pode chegar perto das lagunas, isso me frustrou bastante… tudo bem que a vista é maravilhosa, mas dá vontade de chegar perto, tocar e tudo mais, e na maioria dos parques de lá não se pode fazer isso.
    Obrigado!!

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      Gabi Nascimento
      26 de outubro de 2016 em 10:46

      Oi, Rafael! Que coisa boa que você está planejando viagem pra lá. Com certeza vai amar! A paisagem é bem diferente do Atacama e a dinâmica dos passeios e parques também. No Parque Nacional los Glaciares, por exemplo, as trilhas são marcadas apenas pelo caminho “natural” que todo mundo segue nas trilhas… Sem delimitação de pedras nem nada. Você pode sim chegar perto das lagoas, pegar água das fontes, andar fora da trilha… claro, tudo com o maior respeito e cuidado. A vigilância no parque é bem preocupada com a sua preservação, então não recomendamos que você saia andando por trilhas no meio “da mata” se não for autorizado. Mas, sinceramente, nem vai precisar. É bastante livre o caminho e você pode interagir com a natureza, seguindo as regrinhas que até estão naquela foto do quadro na entrada do parque de El Chaltén. Espero ter ajudado. Qualquer outra dúvida, pode mandar um e-mail pra gente 🙂 contato@mundoavolta.com Boa viagem e um abraço, Gabi

      • Comentar
        Rafael
        26 de outubro de 2016 em 12:52

        Ah que otimo!!! nao que eu queira sair me embrenhando no meio da mata, mas andar apenas num caminho demarcado por pedras foi meio frustrante! rsrsrs
        Maravilha ! Obrigado!

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    Anderson Fernandes de Oliveira
    1 de novembro de 2016 em 13:03

    Oi Gabi nossa estou adorando os relatos de vocês e estamos querendo muito conhecer a Patagônia, serio que lugar lindo e os videos são motivadores, queria tirar algumas duvidas, se puder ajudar a gente. Não falamos outro idioma conseguimos se virar fácil por lá? E em termos de valores, quanto você gastaram com tudo uma base, não precisar ser o valor exato, e qual o tempo total que ficaram por lá ? para eu poder organizar minhas ferias… Desde já muito obrigado

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      Gabi Nascimento
      3 de novembro de 2016 em 10:03

      Oi, Anderson! Tudo bom? Que maravilha que você adorou 🙂 Coooom certeza vocês conseguem se virar super bem sem falar espanhol por lá. Por ser uma região muito turística, estão muito acostumados com turistas brasileiros e de todas as partes. Não se assustem com a rapidez e o sotaque que eles falam. Fiquem calmos e tentem falar devagar para se fazer entender. hehe 🙂 Sobre os valores, fica difícil dizer um montante porque estávamos viajando há muito tempo pela Argentina. Em El Calafate ficamos em torno de 4 ou 5 dias (mais do que o suficiente) e em El Chaltén ficamos dois dias. Vocês precisam levar em consideração a época mais cara de viajar pra lá: o verão. Os preços de tudo sobem. E ainda tem a questão inflacionária da Argentina. Sabemos que os preços hoje por lá estão maiores do que na época em que fomos. Se vocês forem ficar em hostel, considerem uma média de 80 reais por pessoa, por dia. Para alimentação, vai depender muito se vocês vão cozinhar no hostel ou em restaurantes. Para os passeios, vai depender muito de quais forem fazer. Nós apenas alugamos um carro e fomos por conta própria ao Perito Moreno (o que valeu bem mais do que pagar o tour com uma agência). Enfim, eu estimaria algo em torno de 4mil ou 5mil reais por pessoa. Para a nossa realidade, esse valor seria um exagero (porque fomos no método mochilão total). Não sei qual a vibe de vocês… Enfim, espero ter ajudado. Se tiver mais alguma dúvida, manda um e-mail pra mim: gabriela@mundoavolta.com Beijos!

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    Priscilla Turella
    10 de dezembro de 2016 em 09:01

    Oi Gabi, adorei seu relato, estou decidi que vou conhecer a patogonia em dezembro do ano q vêm(não quero pegar tanto frio), porém pretendo ficar uma semana em calafate, então dentro desse período estou pensando em conhecer el chaten, mas como sou quase sedentária e não acostumada com trekking, fiquei um pouco receosa, mas depois q li seu Post estou mais confiante de ir no ritmo devagar e sempre, pois tenho alguns problemas com subidas, descobri isso na chapada diamantina.

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      Gabi Nascimento
      13 de dezembro de 2016 em 19:07

      Oi, Priscilla! Que bom que você se identificou 😀 O importante lá em El Chaltén, se você quiser fazer todos os 10km de trilha, é sair bem cedo. Aí sim você vai poder ir no seu ritmo e sem aquele desespero de ter que voltar rápido antes que escureça (no verão só começa a escurecer quase 22h30, ainda bem). Espero que seja uma ótima aventura, e depois me conta aqui 🙂 beijos, Gabi

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