Argentina Iruya

Iruya: turismo comunitário no norte argentino

Muita gente considera a província de Jujuy como o centro dos povos antigos na Argentina. Mas, foi em um pequeno povoado de Salta que a gente encontrou um dos principais focos de resistência da cultura andina no país: Iruya. Um pueblito fincado nas montanhas, que luta todos os dias para preservar a sua identidade ancestral. Tanto que a primeira coisa que a gente viu quando buscou informações turísticas foi o cartaz abaixo.

iruya-salta-turismo-comunitário

Traduzimos as informações para vocês:

SR. TURISTA, VOCÊ ESTÁ INGRESSANDO EM UM POVOADO COM IDENTIDADE PRÓPRIA

– Respeite a forma de vida, usos e costumes;

– Não tire fotos das pessoas sem pedir autorização;

– Não faça barulhos incômodos nas vias públicas ou depois da meia-noite, nem leve cachorros ou dê alimento;

– Não dê moedas a crianças;

– Não pegue ou destrua restos arqueológicos, “antigales” e etc;

– Não transite pelas vias públicas em roupa de banho;

– Informe-se sobre os lugares que pode visitar;

– Colabore por um turismo sustentável e respeitoso pela vida (cosmovisão e filosofia andina).

Essa lista de boas práticas pode parecer óbvia para algumas pessoas, mas a maioria dos turistas e das próprias comunidades não respeita essas atitudes. E assim, gesto após gesto, as cidades e culturas vão sendo depredadas. Mas, para a alegria dos viajantes conscientes, em Iruya as coisas são diferentes. Apesar desse cartaz estar na frente da oficina de turismo do governo, lá o turismo é comunitário em todos os sentidos e os moradores não esperam a prefeitura para agir.

Inclusive, a pessoa mais indicada para dar informações turísticas na região trabalha de maneira independente e por puro amor a sua cultura. Quando visitar essa cidadezinha linda, procure a Adelina López. Ela vai levar você para longe do turismo convencional, geralmente reduzido a caminhadas até o povoado vizinho de San Isidro, e para dentro do estilo de vida deste lugar, que vem se desenvolvendo há centenas e centenas de anos. Depois de 500 anos sofrendo com a colonização, essa é uma das comunidades que está dando a volta por cima e fortalecendo cada vez mais sua identidade milenar.

Nossa experiência começou na sala de informações turísticas da Adelina (ou Doni, como é conhecida), onde paramos para perguntar o que podíamos conhecer na região. A primeira atividade que pensávamos em fazer era percorrer o caminho até San Isidro, já que todas as pessoas que a gente conheceu faziam isso. Mas, quando a Doni percebeu que estávamos interessados em outro tipo de turismo, logo nos ofereceu um passeio bem mais interessante. Caminhar até as terras da família dela, onde seus pais e sua irmã vivem até hoje, e conhecer a verdadeira cultura andina de Iruya. Nossos olhos brilharam e, olha, foram os 150 pesos mais bem gastos até agora na viagem.

– ASSISTA AO VÍDEO: “Turismo comunitário em Iruya”. –

Curral Viejito: o passado ganha vida

Por mais que um lugar tenha paisagens espetaculares, nós sempre buscamos entender a sua essência através das pessoas. E tudo que a Doni foi nos contando no caminho de 30 minutos até o Curral Viejito, aonde vive a sua família, só tornou Iruya ainda mais bonita. As fendas nas montanhas ganharam formatos de flechas e se transformaram em sítios arqueológicos cerimoniais. As plantas, que antes passavam quase despercebidas, agora curavam dores de barriga, problemas do coração e doenças espirituais. Tudo passou a ter significado e uma função essencial no dia a dia daquela região.

Até chegarmos na casa da mãe da Adelina, que fica na entrada de um vale e onde ela planta todo tipo de medicinas e alimentos. Batata, milho, salsinha, pêssego, maçã, cebola, flores e mais um cardápio inteiro de temperos e ervas. Com a criação de cabras, ela garante o queijo e a carne para diversas receitas.

Visitando a casa da mãe da Adelina

Visitando a casa da mãe da Adelina

 

As cabras são parte importante da cultura andina

As cabras são parte importante da cultura andina

 

As casas também são feitas com técnicas antigas, que misturam pedras, barro e usam vegetações locais como teto. Na casa da avó da família, que já havia partido para outra, ainda estava a vasilha de cerâmica que sempre recebia os visitantes com chicha de milho – uma bebida alcoólica muito tradicional entre os povos andinos.

E esse passeio vai muito além. Na mesma propriedade, encontra-se um cemitério pré-colombiano onde é possível encontrar cerâmicas antigas com desenhos funerários e que ainda guardam restos mortais centenários. Um lugar sagrado que se enche de magia a cada palavra da Doni. Para encerrar essa viagem até o centro da filosofia andina, subimos a um mirador que é proibido para quem tem medo de altura, mas completa o profundo significado das montanhas nesta região. Lá de cima, fica mais fácil entender porque elas são consideradas sagradas.

Mirador do Curral Viejito

Mirador do Curral Viejito

 

Só o passeio a esse lugar já é uma aula de turismo comunitário. Mas, a tarde encerrou com mais uma grande lição da Doni. Ela explicou que os turistas devem, acima de tudo, respeitar a cultura que visitam. Precisam entender os costumes e crenças locais, e estar dispostos a se adaptar ao estilo de vida andino. Essa é a chave para eles aproveitarem ao máximo sua experiência e ajudarem a fortalecer o turismo, a cultura e as economias locais. Ela disse também que as atividades turísticas de Iruya seguem os ciclos do ano e todos os visitantes estão convidados a vivenciar as festas e acontecimentos que movimentam cada época, sempre em total conexão e integração com as famílias locais.

Aí vão algumas atividades citadas pela Doni que você pode fazer parte, se tiver interesse.

Agosto:

Cerimônias de oferendas à Pachamama – ou Madre Tierra – acontecem durante todo o mês. Esses rituais precedem a época de plantio e o mais importante acontece em 1º de Agosto, Dia da Pachamama.

Setembro a Dezembro:

Plantio de quinoa, batata, ervilha e etc. Você pode aprender, entre outras coisas, a arar a terra com bois e burros.

1 e 2 de novembro:

Día de los Difuntos. As famílias fazem oferendas aos mortos, acreditando que neste dia eles descem do céu (ou “Más allá”) e voltam à vida para visitar seus entes queridos.

21 de dezembro:

Capac Raimy. Acontece no dia do Solstício de Verão e é uma festa em homenagem ao sol. Corresponde ao primeiro mês do calendário Inca.

Janeiro:

Festival Tradicional de La Copla y El Canto. Cada comunidade leva suas coplas (gênero musical), vestimentas e alimentos que produz para uma grande confraternização em Iruya.

Janeiro e Fevereiro:

Colheita de “avas” e ervilhas. Você pode aprender com as famílias como colher e selecionar esses produtos.

Fevereiro:

Carnaval. Bem diferente da nossa festa, o carnaval de Iruya é embalado pelas coplas, pela chicha de milho e é repleto de rituais. Como, por exemplo, o desenterro do Diabo.

Março e abril:

Colheita da batata andina.

É só escolher uma época do ano para visitar Iruya, que você vai aprender um pouco sobre o estilo de vida milenar dessa região. Mas, somente se você chegar com muito respeito à comunidade, à natureza e à cultura tão rica desse povo. Aqui, mais do que em outros lugares, o turista colhe apenas o que planta. E, graças a pessoas como a Adelina López, essa maneira de viver está renascendo das cinzas da colonização e dando aula de turismo comunitário, sustentável e respeitoso.

Onde ficar em Iruya

Até o sistema de hospedagens de Iruya é comunitário. Lá, é muito comum os turistas ficarem em casas de família, o que facilita ainda mais a integração com a cultura local. Nós nos hospedamos na hosteria da Asunta e saímos bem satisfeitos. Mas, ficamos amigos da dona de uma hospedagem chamada El Tapial e certamente vamos parar aí quando voltarmos à cidade. Além de ter wi-fi, o que é muito difícil de encontrar, na casa da Clarisa você encontra tudo para vivenciar o estilo de vida originário de Iruya. Lá mesmo você pode plantar alimentos, recolher as ovelhas e participar de diversas atividades tipicamente andinas.

Como chegar em Iruya

Se você estiver viajando pelo norte argentino, a maneira mais fácil de chegar em Iruya é pegando um ônibus em Humahuaca, uma cidade da Província de Jujuy. O ônibus custa 50 pesos e a viagem é uma das mais lindas que a gente já fez, percorrendo o topo das montanhas. O trajeto leva três horas e meia. Outra forma de chegar ao povoado é saindo da capital da província, Salta, que está a 300km de distância.

Se você se interessou pela cultura do norte Argentino, confira também nossos posts sobre a província vizinha de Jujuy.

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2 Comentários

  • Comentar
    Léa Gomes
    24 de janeiro de 2017 em 12:54

    Oi, galera, amei a dica. Irei pela Argentina agr em Abril e já estou vendo a possibilidade de encaixar Iruya no roteiro. Queria saber se vocês sabem se tem alguma rede de turismo comunitário em Buenos Aires ou nas redondezas, pq a priori, nosso destino ta sendo Buenos Aires e uns dias na casa de um amigo La Plata, mas estou louca para fugir desse turismo convencional e focar na troca de experiências que só o turismo solidário proporciona com tanta dedicação.

    Abç

    • Comentar
      Gabi Nascimento
      16 de março de 2017 em 17:31

      Oi, Léa! Mil desculpas pela demora em te dar retorno por aqui. Então, nós não conhecemos nenhuma empresa de turismo comunitário que opere em Buenos Aires, mas você pode fazer contato com o pessoal da Travolution.org pois eles operam em toda a América do Sul (e algumas partes da Argentina, inclusive). Sobre Iruya, se você realmente for até lá, faça contato com a Adelina López. Ela é responsável pelas iniciativas de turismo comunitário em Iruya, e o Facebook dela é Donata Lopes. https://www.facebook.com/donata.lopez.5?fref=ts Espero ter ajudado. Abraços e boa viagem! Gabi

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